“O que sou nunca escondi, vantagem nunca contei.
Muita luta já perdi, muita esperança gastei.
Até medo já senti e não foi pouquinho não.
Mas fugir, nunca fugi, nunca abandonei meu chão.”
Cantiga Brava, de Geraldo Vandré.
Esses versos do grande compositor da resistência democrática, também perseguido nos anos de chumbo, estão impregnados na mente e no coração de quase todos que combateram a ditadura militar. Inegável que quando o poeta, ao afirmar que, apesar de ter sentido muito medo, nunca fugiu, nunca abandonou seu chão, estava dizendo que, diferentemente de muitos, permaneceu no Brasil e não foi para o exílio. É, sem dúvida um louvor ao heroísmo. Quem ficou e sofreu é o corajoso, quem foi embora é o covarde.
É verdade que houve quem deixasse o país por comodismo ou por covardia. Certo, também, que muitos foram obrigados a deixar o país simplesmente para não serem executados friamente pelos algozes da ditadura. Entre o final de 1974 e decorrer de 1975, por exemplo, quando as organizações que empunharam armas já estavam praticamente todas derrotadas, a repressão voltou-se contra o Partido Comunista Brasileiro, que não pegara em armas contra o regime. Nove membros do Comitê Central foram presos e executados no Brasil. O objetivo era eliminar toda a direção do PCB. Não houve outro caminho, senão o exílio para os demais dirigentes. Permaneceram no Brasil em liberdade apenas três membros do Comitê Central e o jornal Voz Operária passou a ser editado no exterior.
Quem ficou no Brasil, foi preso, torturado, maltratado e sobreviveu pode até julgar-se um verdadeiro herói. Não pode, todavia, insinuar que todos os que viveram no exílio são covardes ou não merecem o mesmo lugar na história.
Leonel Brizola, João Goulart e Miguel Arraes foram obrigados a deixar o país. Jango, mesmo no exílio, não escapou de uma morte até hoje misteriosa. Luiz Carlos Prestes permaneceu no Brasil até 1971, quando se anteviu que o massacre contra o Comitê Central viria, como acabou vindo, anos depois.
Covardes? Sem dúvida que não.
Dilma Roussef, num momento de empolgação e certamente querendo insinuar que José Serra seria um fujão, empregou praticamente as mesmas palavras de Geraldo Vandré, ao dizer “nunca abandonei o barco”.
Após inúmeras reprimendas e críticas, Dilma já procurou explicar suas afirmações, prestando homenagens aos ex-exilados, muitos dos quais seus companheiros de partido. Praticamente um pedido desculpas, sem empregar a expressão.
Teria sido apenas um escorregão, fruto da inexperiência política eleitoral, como afirmou Plínio de Arruda Sampaio, também ex-exilado e pré-candidato a Presidência, pelo PSOL?
Penso que, antes de tudo, aquela afirmação é fruto da arrogância de quem se imagina heroína.

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